Naquele dia... eu não estava feliz!
ATENÇÃO: Esse não é um texto motivacional.
O único sentimento era de alívio. E o pensamento era: Ufa. Estou livre para viver a vida que eu quero. Para pôr os pés na estrada e LIBERDADE. Eu quase pude sentir o gosto da liberdade nesse dia. Só faltava isso mesmo.
Eu não queria fazer uma faculdade, para começo de conversa. E se eu fosse fazer uma faculdade, eu tinha outras ideias de cursos que não agradavam muito à minha família e, mesmo nunca tendo sido um docinho de pessoa, eu sempre levei em consideração o que ela falava. Psicologia, não. Medicina pra trabalhar com psiquiatria ou em necrotério como médica legista, também não. Letras pra ser professora, não. Comunicação social pra ser jornalista, até que pode ser, você tem jeito, escreve bem. Música então... "Rá, quem é que faz faculdade de música, Aline? Quer morrer de fome? Você precisa fazer alguma coisa que dê dinheiro".
Palestra na escola em 2004, sobre eventos. Eventos no Distrito Federal estava crescendo, então fui em busca de faculdades em Brasília que tinham curso de eventos, acabei parando em Administração com Habilitação em Gestão Hoteleira, na Upis. Confesso que as melhores aulas eram as que a gente comia e bebia nos estabelecimentos. Aquilo não era pra mim. Eu reprovei em diversas matérias, várias vezes. E não era por burrice, era por desânimo de sair de casa e ter que ir fazer algo que eu não queria. No final do terceiro semestre, antes das avaliações, eu surtei e joguei tudo pro alto. Vou fazer letras e pronto.
Eu tentei fazer algo que eu queria naquela época. Mas, como tudo o que eu quis nessa vida, eu acabei desistindo na primeira dificuldade. Eu desisti do piano, do canto, do violino, do violão, das letras, da fotografia, de mim... Sempre. Voltei para a faculdade com o rabinho entre as pernas, terminei o terceiro semestre e mudei para o curso de Turismo, onde me graduei, à custa de muita bronca e puxão de orelha de alguns professores.
Além de minha mãe não deixar eu trabalhar, ela disse que eu só poderia tirar a minha habilitação se eu terminasse o ensino médio. Terminei o ensino médio e entrei na faculdade. Consegui a habilitação e o trabalho. Não durei no trabalho, o chefe não queria me contratar. Fiquei três semanas atendendo gente, vendendo plano e não ganhei um centavo, nem desconto na habilitação. Mas peguei o professor. Ou fui pega. Enfim, discussão pra outro tipo de post.
Eu tive apoio para começar tudo o que eu queria fazer. Eu tive apoio para começar o piano, o violino, o canto, a fotografia, o curso de cabeleireiro, etc. Minha mãe me deu apoio financeiro para tudo. Sempre. Eu só precisava ir atrás, procurar os meios e ela pagaria. No entanto, quando a dificuldade batia e eu pensava em desistir, ela não me apoiava a persistir, a ficar, a insistir. E eu a culpei muitos anos por isso. Por "nunca" ter me apoiado. Até que um dia eu entendi que a gente só dá aquilo que a gente pode dar. E esse era o único apoio que ela podia me dar. Era o único jeito que ela sabia dizer que independente do que eu escolhesse fazer, ela me apoiaria. Eu era jovem e eu não entendia.
Em 2020 nós compramos um piano porque eu decidi que voltaria a estudar. Mas, adivinhe? Quando os dedos da mão esquerda começaram a travar demais e eu comecei a ficar muito nervosa, qual foi a minha primeira atitude? Desistir. Eu cobri o meu piano e falei que tentaria de novo depois. Nunca mais eu tentei. Desde 2021 que eu não toco. Ele está ali, logo ali, atrás de mim. Eu parei de pagar o aplicativo que eu usava para aprender. E eu não sei quando pretendo começar umas aulas de verdade, porque agora nem apoio financeiro para começar eu tenho mais e tudo bem, porque ela já fez demais por mim quando eu nem sabia o que eu queria, mas eu fazia o que eu achava que ela queria.
Desistir de mim sempre foi fácil, mesmo que doloroso às vezes. Eu podia desistir de mim quantas vezes fossem necessárias só para ver a minha mãe feliz e orgulhosa de mim. Eu era uma adolescente tão difícil e tão cruel. Mesmo com ela tentando me proporcionar uma vida fácil e boa, eu tive uma vida tão difícil, por ela estar sempre longe e trabalhando tanto, que na adolescência com todos os hormônios e companhias, acabei indo para um lugar não muito bom, sabe? E fazendo escolhas ruins.
Eu fiz uma pós-graduação depois pra tentar me manter na área. E depois fiz mais um graduação que eu também não queria fazer, mas tinha colocado na minha cabeça que eu queria fazer. A pior mentira é aquela que a gente conta pra gente mesmo e ainda se convence que ela é verdade. Eu fiz isso comigo mesma algumas vezes e por muitos anos. E um dia a vida cobrou a conta e eu cheguei a cogitar tirar a minha vida, já que nada mais fazia sentido. Mas fazia. Eu tinha realizado UM único sonho de toda a minha vida. Eu tive um filho. E eu tinha que continuar viva. E pra isso eu precisava viver. Viver quem eu sou, de verdade. Me buscar, me encontrar, me reencontrar, fazer as pazes comigo. Insistir, persistir e parar de desistir de mim.


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