Epifania: 14 de Novembro de 2021

   Muitas vezes nos perdemos nos significados dos nossos próprios sentimentos, principalmente para quem sofre de depressão e ansiedade. 

  Então, para facilitar a nossa conversa aqui, primeiro quero trazer a definição de alguns sentimentos, assim como eles estão no dicionário e não vou me aprofundar nas definições pois eu não sou uma profissional capacitada para isso. Tudo o que falo aqui é de âmbito pessoal, portanto acho mais conveniente ficar com o que me convém.

pai·xão

(latim passio, -onis ação de suportar,  ação de sofrer)

substantivo feminino

1. Impressão viva.

2. Perturbação ou movimento desordenado do ânimo.

3. Grande inclinação ou  predileção.

4.  Afeto violento, amor ardente.

5.  objeto desse amor.


"paixão", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/paix%C3%A3o [consultado em 15-11-2021].

tris·te·za |ê|


(latim tristitia, -ae)
substantivo feminino

1. Qualidade ou estado do que é ou está triste.

2. Mágoa.

3. Aflição.

4. Pena.

5. Angústia.

6. Inquietação.

7. Melancolia.


"tristeza", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/tristeza [consultado em 15-11-2021].

de·pres·são


(latim depressio, -onis)
substantivo feminino

1. Abaixamento de nível.

2. [Figurado]  Enfraquecimento, abatimento, físico ou moral.


depressão mental
• [Meteorologia Perturbação mental caracterizada pela ansiedade e pela melancolia.

depressão nervosa
• Estado patológico de sofrimento psíquico assinalado por um abaixamento do sentimento de valor pessoal, por pessimismo e por uma inapetência face à vida.


"depressão", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/depress%C3%A3o [consultado em 15-11-2021].

   



   Ok. Trazidas as palavras e seus significados, acho que posso começar a dissertar sobre o que me veio a mente e o porquê de muitas e muitas vezes eu optar por não tomar o rivotril e, sim, por sentir. Porque ao tomar o rivotril, eu vou estar perdendo a capacidade de sentir todo e qualquer sentimento. 

   Então vamos aos fatos. 

   No dia 01 de Outubro de 2021 eu saí com duas amigas para conhecer um pubzinho em Águas Claras, região nas redondezas de Brasília e conheci um rapaz, pelo qual me senti atraída. Como o meu histórico de flertes não é muito bom (vide a página no Instagram @semdatapradates pra entender o meme: eu não sei flertar), falei com a minha cunhada e ela de pronto falou "te arranjo". E eu, né? Tá. Beleza. Topei. E foi assim. Ela pegou o telefone dele e falou "é pra minha cunhada". 

   Noite vai, noite vem. Ele estava de máscara, parecia bonito, vários flertes. Falei para a minha a namorada de meu irmão na época "e se quando ele tirar essa máscara ele for feio?". Bom, acabou que ele era feio. Mas era gentil, engraçado, me trouxe gelo pra colocar no meu joelho dolorido, me trouxe água e me tratou bem. Não apenas por eu ser cliente da casa. Me tratou bem com os olhos, com as palavras, com o toque. Nós não nos beijamos naquela noite, entretanto gostaríamos. Quando já íamos embora, ao entrar no carro falei "Ah, cê sabe que desse mato não sai cachorro, não sai coelho, não sai gato, passarinho, nem bicho nenhum, né?", fomos até a casa dela conversando, depois fui para minha casa e à essa altura ele já tinha me falado várias coisas lindas pelas mensagens diretas no Instagram. Não existe no mundo, ser humano mais gentil e atencioso do que o homem que quer te pegar a primeira vez.

   Os dias se passaram, ele foi me conquistando e eu me apaixonando. Já quase não conseguia mais me conter e pensava em ir vê-lo a qualquer custo. Sim. Eu havia me apaixonado. E ele também, pelo que aparentava. E estávamos bem. Conversávamos todos os dias, em qualquer horário. E em um determinado momento eu quase fui vê-lo, mas o sono foi maior, e eu acabei pegando no sono e cochilando. Logo que acordei nós nos falamos um pouco e já estava tarde para eu sair e ir até o encontro dele. Então, fiquei em casa. Pouco depois ele sumiu e eu também não o procurei. Ele parou de visualizar meus stories e mesmo assim eu não procurei, imaginei que pudesse ter acontecido algo, ninguém olha todo dia, né? Vários dias se passaram desde o sumiço dele e aí sim eu o procurei. Ele havia me bloqueado no Instagram, que era o nosso único meio de contato (sim, eu tinha esquecido que minha cunhada tinha pego o número dele). 

   Naquele momento eu só fiquei em choque. As mãos frias, a boca seca, o coração acelerado e os pensamentos a mil... De repente, a raiva, a tristeza, a falta de ar, a incredulidade.... "Por que ele fez? O que foi que eu fiz? O que foi que aconteceu?". Corri na conversa para procurar algo que testemunhasse contra mim. Li e reli diversas vezes e não encontrei. Não encontrei nada que me acusasse. Nada que depusesse contra a minha conduta. Porque quando a gente é mulher e vive um (ou vários, como é o meu caso) relacionamento abusivo, a gente escuta tanto que é a culpada por certas coisas, que acaba indo buscar 'provas para se defender' caso seja necessário, porque a gente aprende a viver na defensiva. 

   Logo depois eu chorei. Chorei muito. Me senti realmente triste. E percebi que era tristeza. Eu tinha me apaixonado depois de tanto tempo e o meu objeto de desejo já não estava mais ao meu alcance. 

   Como boa escorpiana e agente do FBI que sou, tenho várias contas no Instagram para fins de espionagem mesmo (kkkkk zoeira, são contas reserva, uma do Ateliê e uma outra pra quando eu só quero ver umas páginas que eu gosto sem ter que entrar na minha conta pessoal), entrei numa das minhas contas reserva e fui atrás dele. E falei numa boa " vi que você me bloqueou na minha outra conta, tudo bem, fica bem, abraços". Logo ele me bloqueou nessa também. E eu fiquei zuretinha de raiva. Tinha alguma coisa ali. Eu comecei a ficar desconfiada. O que ele estava escondendo de mim ou de quem ele estava me escondendo.

   Num dia em que resolvi sair sozinha, também depois de muito tempo, e com apenas uma refeição no estômago, duas cervejas e um drink foram o suficiente para me alcoolizar a ponto de me fazer sair da Asa Norte para Águas Claras para tirar satisfações com ele PES-SO-AL-MEN-TE. Ok? Não... nada ok. Eu nunca fiz isso nada vida antes. Oi? Esse não é o modos operandi da Aline. Ou não era. Enfim. Eu não tirava satisfação com as pessoas. Muito menos pessoalmente. Cheguei lá e ele já tinha ido embora. Aleluia. Amém. Só que não parou por aí, eu usei a minha terceira conta no Instagram para ligar pra ele inúmeras vezes, ainda bem que ele não atendeu também. Eu estava alcoolizada. Acho que não seria a melhor hora para falar com ele. Eu estava fora de mim. Aguardei ali no estacionamento, bebendo água e deitada no banco do motorista enquanto meu estado alcoólico se diluía.

   Enfim depois de alguns minutos ali, parada, me lembrei que a moça que havia ido comigo na primeira vez pegou o número dele, então eu pedi a ela. De cara ela não me respondeu. Nem atendeu às minhas inúmeras ligações também. Então, naquele momento, só me restou a solidão desalentada da embriaguez. Eu não tinha a quem recorrer a não ser a mim mesma e ao tempo que demorava a passar. No mesmo dia, mais tarde, já em casa logo depois de acordar e ver que ela havia me enviado o número dele, enviei uma mensagem perguntando, sem rodeios, o que havia acontecido. E o que havia acontecido, realmente, não era culpa minha. Ele voltou com a ex. Tínhamos pouquíssimos dias de história, sim. Mas ele não teve a menor consideração. E ainda disse que foi pelo filho. Disse que ela o estava proibindo de ver o filho (na minha terra, o nome disso é mentira, voltou com ela porque quis). A mínima consideração que ele poderia ter tido era de ter me avisado. 

   Eu entendo que devido ao pouquíssimo tempo em que conversamos ele não me devia coisa alguma e que ele não tinha obrigação alguma para comigo. Mas eu ainda acredito na humanidade, respeito, consideração e caráter das pessoas, mesmo sabendo que na sociedade em que vivemos, esperar essas qualidades de alguém é mesmo que esperar encontrar uma nota de cem na rua hoje em dia, no mundo do pix. E o mais incrível de tudo é que as pessoas se orgulham e se regozijam de serem cruéis umas com as outras. No entanto, aquele comportamento dele me entristeceu profundamente e eu não sabia lidar com aquele sentimento. 

   Poucos dias depois decidi que iria comemorar o meu aniversário ali. Era o que eu queria. Convidei alguns poucos amigos. E ele estava lá. Óbvio. Era o local de trabalho dele e era uma sexta-feira. Algumas bebidas depois, eu já muito alegrinha perguntei o que ele me daria de presente de aniversário e disse o que eu queria: ele. 
Eu estava há, praticamente, dois anos sem me relacionar com ninguém, emocionalmente e sexualmente. E não foi somente por causa da pandemia, haviam motivos pessoais também que me fizeram escolher por esperar.

   E eu esperei. Até que o conheci, me apaixonei e achei que fosse o momento de parar de esperar e de me entregar novamente. E assim eu o fiz. Naquele dia, no meu aniversário, eu entreguei a ele a minha espera. Não foi da forma que eu queria que tivesse sido e depois eu fiquei sem saber se eu realmente queria ou se era só efeito do álcool. Mas eu me entreguei a ele por paixão, depois de passar tanto tempo esperando, depois de tanto tempo sem me relacionar sexualmente com alguém apenas por impulso, para satisfazer a um desejo físico. Eu queria que quando acontecesse, fosse algo muito mais do que corpos, eu queria que tivesse alma também. 

   E eu esperei muito. E eu estava (e ainda estou) bem sozinha na medida do que é possível estar para uma pessoa ansiosa/depressiva. Eu não submeto o meu bem-estar e a minha felicidade a outra pessoa, sei que eles dependem única e exclusivamente de mim. Mas eu esperei para poder me entregar novamente à uma nova paixão, a alguém que eu achei que pudesse confiar, que pudesse entregar não só o meu corpo, mas os meus sentimentos. E, mesmo que naquele momento eu soubesse que ele não era essa pessoa, eu estava embriagada não apenas de álcool, mas de um desejo que só crescia, toda vez que ele passava por mim ou me mandava mensagem dizendo o quanto eu estava linda aquele dia. E eu estava cheia de uma esperança que me fazia acreditar cegamente que ele poderia voltar atrás na decisão dele, afinal de contas fazia tão pouco tempo que, talvez, eu ainda tivesse alguma chance. 

   Então, bêbada, e depois de passar a noite inteira vendo os casais que estavam comigo se agarrando, e sem pensar muito, eu me entreguei a ele. Por completo. Por paixão, tesão ou carência, eu não sei dizer, só sei dizer, hoje, que foi a maior estupidez que fiz e, sim, eu me arrependi depois, quando acordei de ressaca no sofá da casa da namorada do meu irmão, com uma dor infernal na minha vagina e quando fui ao banheiro notei um pequeno sangramento. Não foi violento. Mas foi de qualquer jeito. E aquilo me machucou. Física e emocionalmente. Mais uma tristeza para a coleção. Elas só se acumulavam. E eu não sabia que rumo dar a essa quantidade absurda de tristezas, mesmo fazendo terapia. 

   No final de tudo, ele não ficou onde eu ofereci servir os meus sentimentos caso ele decidisse ficar. Ele preferiu ficar com ela. Não estava tudo bem, mas era compreensível, afinal de contas eles tinham uma vida juntos antes de eu chegar. E eu sei que ele mentiu para mim sobre muitas coisas e isso foi tão doloroso, cair na real e, então, novamente o meu coração se partiu. E com o passar dos dias, todos aqueles sentimentos foram se acumulando. Depois de acumular tanta tristeza e sem saber o que fazer com ela, eu sucumbi a algo que eu pensei ser a depressão. Eu, simplesmente, caí num vazio existencial, afogada até o último fio de cabelo nas águas escuras, turvas e densas de uma tristeza absoluta. Eu queria dormir para não ter que enfrentar aquilo tudo novamente. Eu queria dormir e eu não queria acordar. Tudo em mim ansiava por desistir dessa reles e miserável existência. 

  Eu me odiei e fiquei infeliz com o que tinha feito. Pensava que toda a minha vida se resumiria a isso, a atos impensados, e viver assim não faz o menor sentido. Eu precisava encontrar motivo para querer viver novamente e não apenas sobreviver. E existe uma grande diferença entre as duas coisas. Eu sempre fui refletir muito e de me permitir sentir tudo, sendo assim, em um determinado dia, mais exatamente no dia 14 de novembro de 2021, tomando banho eu tive a seguinte epifania*: Isso é tristeza, não é depressão. Eu não quero morrer, eu quero que o sentimento morra e que essa dor acabe. 

   A dor não acabou logo em seguida e nem, tampouco, o sentimento morreu ali. Mas ele foi morrendo aos poucos, conforme a minha admiração pela pessoa que ele tinha se mostrado ser ia acabando pela maneira que ele realmente era. Ele não era gentil, caloroso, simpático. Ele apenas estava interessado em algo que eu poderia oferecer e depois que conseguiu, o interesse acabou. Eu ainda tentei por algum tempo chamar a atenção dele para que pudéssemos ter alguma coisa, mas a vida se encarregou de não tornar isso possível. O que foi muito bom, pensando claro depois. 

   No dia em que completou um ano que nos conhecemos eu falei pra ele o quanto ele tinha sido importante pra mim na minha volta à vida. Ele nunca vai entender e talvez você também não entenda, porque para isso eu teria que explicar coisas que estão fora do meu alcance emocional para lidar agora. 

   A questão de sentir é importante, porque só sentindo podemos identificar e aprender a lidar com esses sentimentos e não ficamos nos dopando a toa, tomando remédio como se fosse aliviar toda e qualquer dor que a vida nos impõe. Viver, de certa forma, é sofrer por alguma coisa, em algum determinado momento, e ceifar a própria vida não é atalho para nada. 

   Eu demorei mais de um ano para conseguir concluir esse texto porque eu precisava realmente viver novas experiências para que eu pudesse entender aquela. Eu precisava viver novas paixões, para que aquela fosse só o alvorecer de uma vivência toda cheia de novos significados. E foi. 






*Epifania: Epifania também pode ser considerado como um “pensamento iluminado”, tido como uma inspiração divinal que surge em momentos de impasse e complexidade, solucionando as frustrações e dúvidas sobre determinada angústia.

Os ingleses costumam utilizar muito este termo dizendo: “I just had an epiphany”, no sentido de “pensamento indescritível e único”. https://www.significados.com.br/epifania/














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