Como eu encontrei o meu propósito na dor: Parte 1
Depois de cursar mais uma faculdade, a de Ciências Contábeis, por pensar que isso agregaria ao meu currículo e me faria alçar voos ainda mais altos na Hotelaria, eu caí.
Caí por não conseguir um estágio na administração dos hotéis de Brasília e, sim, eu só procurei aqui, mesmo nas redes eu não me dispus a viajar. Devido a maternidade a proximidade à minha família, por necessidade de uma rede de apoio que me ajudasse na criação do meu filho, sempre foi crucial na minha busca de emprego, ao menos enquanto meu filho for pequeno e precisar de mim.
Caí porque quando eu consegui um estágio em Contabilidade, o ambiente era altamente tóxico para mim, devido ao meu TDAH, e eu não tinha coragem de falar isso para ninguém do escritório porque eu não queria que nenhum estereótipo fosse criado e mesmo suportando por alguns meses todo aquele esgotamento mental e emocional, depois de uma tragédia pessoal, eu simplesmente tive que sair.
Caí porque tudo aquilo que eu estava fazendo me afastava do meu propósito, que mesmo sem saber qual era na época (na verdade, eu já sabia, sempre soube, só não queria admitir para mim mesma), me sufocava. E me sufocava porque eu não suportava mais estar ali, vivendo coisas que eu nunca imaginei para a minha vida quando era mais nova. E o meu nível de tolerância a tudo o que me sufoca, incomoda e causa dor, sempre foi muito baixo.
E como só quem caí pode se levantar, e a queda, me fez olhar de baixo e ver minha vida por um outro ângulo, e essa mesma queda me fez um convite a me levantar e mudar tudo, assim eu o fiz. Simplesmente porque eu não poderia continuar vivendo de forma que não me agradasse e distante de tudo aquilo que me afastava de mim, porque eu já nem sabia mais quem eu era.
Eu adoeci emocionalmente. A depressão, finalmente, conseguiu se instalar em mim. E não só ela. A ansiedade que já era parceira minha de longa data trouxe também as crises de pânico. Eu já havia tido algumas ao longo da vida, mas nunca no aspecto social, de ter pavor de sair de casa. (Ao escrever esse texto e me relembrar desses momentos, algumas sensações físicas voltam a me incomodar. Com bem menos impacto, mas elas estão presentes)
Eu decidi que mesmo assim iria concluir o curso. Afinal de contas, era o que minha mãe, que pagava a mensalidade, esperava de mim. Era o que minha família esperava de mim. Era o que meus colegas de curso esperavam de mim. Ou, pelo menos, era o que eu pensava. Foi o que eu sempre pensei a minha vida inteira: as pessoas esperam algo de mim, eu não posso desapontá-las.
No entanto, para conseguir dar conta de tudo isso, no começo de 2020 eu retornei à psiquiatra e nós trocamos as medicações por umas que funcionaram. E aí, veio a pandemia, que se não fosse por ela, eu tenho certeza, que eu não teria conseguido concluir a faculdade de forma presencial. Mas 2020 foi um ano muito difícil para qualquer pessoa decente e que respeitou, minimamente, as regras de distanciamento e isolamento sociais.
E eu só fiz tudo isso porque eu pensava que eu já tinha chegado até ali. O tempo todo, desde o primeiro semestre eu pensava "eu vou continuar, eu já cheguei até aqui". E as pessoas não me deixavam desistir quando eu cogitava desistir porque aquilo, realmente, não era pra mim. "Aline, você não pode desistir, você já chegou até aqui. Você aguenta mais um pouco".
Eu não aguentava mais. Eu não suportava mais e haviam dias que eu tinha vontade de gritar, chorar e sair correndo. "Aline, pensa no seu futuro, no do seu filho. O que vai ser dele se você desistir agora?"
A minha angústia maior eram comportamentos abusivos de alguns professores e da faculdade, que frente à todos aqueles abusos, simplesmente não tomava nenhum posicionamento. Eu era boa aluna e minhas notas eram ótimas. No entanto, como você sabe, não dá pra ser bom em tudo. E tinha um professor em específico, que acabava com o meu brilho. E, infelizmente, ele lecionava grande parte da grade do curso. Praticamente em todos os semestres tivemos aula com ele. Ele podia ser um excelente profissional na área contábil, mas como professor, deixava muito a desejar.
E, como ele, haviam outros também. Eu não citei tudo o que eles faziam, mas esse assunto não cabe aqui. O que cabe é dizer que atitudes assim afetam a nossa autoestima, a nossa saúde mental. Nós entramos na faculdade cheios de esperanças e sonhos e saímos de lá destruídos e devastados. Para algumas pessoas é mais fácil continuar vivendo com a alma corrompida, para outras, aquelas feridas vão-se acumulando com os anos e chega uma hora em que nem a sua alma, nem o seu corpo, nem a sua mente aguentam mais e você se rende à dor.
Em 2021 finalmente concluí aquele curso, mas só foi possível graças à ajuda das minhas colegas, porque em determinadas matérias, o meu cérebro já tinha criado resistência e, simplesmente, não absorvia mais nada e parecia que tinha deletado todo o conteúdo aprendido nos semestres anteriores. E aqui, eu não vou citar nomes, porque não me lembro de todos, mas pra não ser injusta com ninguém, caso você se lembre ter me ajudado, eu lhe sou grata. Mesmo que eu tenha jogado esse curso na toilette e dado descarga.
Depois que eu terminei o curso eu senti algo muito estranho e ao qual eu não estava acostumada: liberdade.
Então eu, finalmente, estava livre e poderia fazer o que quisesse? Sim. Fui lá e fiz mais algumas péssimas escolhas. É claro. Mas entre elas, eu ia fazendo algumas acertadas também, que corroboravam com aquilo que EU GOSTO de fazer. No entanto, era tão estranho. Eu me sentia mal. Me sentia mal fazendo o que eu gostava e me sentia mal fazendo o que eu não gostava mas tinha que fazer porque, naquela época, eu ainda não pensava em jogar tudo pro alto e recomeçar. Eu estava "velha".
(Continua na parte 2)

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