Como eu encontrei o meu propósito na dor: Parte 2 (Final)


  



   Pensava que estava velha, mas não pensava em desistir porque eu tenho uma qualidade: sempre fui muito prática quanto ao que tinha que ser feito. Principalmente depois de me tornar mãe. A maternidade tem dessas coisas de fazer a gente levantar da cama, nem que seja na marra. Eu estudava porque eu tinha que estudar. Eu cuidava do meu filho porque eu tinha que cuidar. Eu ia na psiquiatra porque eu tinha que ir. Eu fazia o que tinha que ser feito.

   No entanto, a gente não consegue enxergar o potencial que isso tem, né? E é algo que a minha psiquiatra sempre me dizia “Aline, vai sem vontade mesmo, que uma hora a vontade vem”. E foi assim que, aliando o meu potencial de fazer o que tem que ser feito com o fazer sem vontade imposto pela minha psiquiatra, eu fui dando continuidade nos meus projetos, mesmo levando o tempo que o mundo não está mais acostumado que a gente leve, sabe? O meu tempo.

   Houveram momentos em que me senti culpada por não estar postando na internet o quanto nos fazem acreditar que deveríamos mas aí eu me lembrava que eu quero ser escritora e não influenciadora, que a forma que eu quero tocar as pessoas é diferente. Eu não quero fazer com que elas se sintam ansiosas ou pressionadas. Eu quero que as pessoas, ao me lerem, ao entrarem em contato com um texto meu, sintam exatamente o que eu senti ao escrever e que possam aprender com ele o mesmo que eu aprendi para escrevê-lo, ou até mais.

   Em alguns dos cursos de escrita que eu fiz, eu ouvi muito meus colegas falarem que deveríamos escrever aquilo que temos vontade de ler, que sentimos falta de ler. E eu parei um tempo de escrever por causa disso, porque eu não sentia que meus textos tinham os atributos que eu gostaria que eles tivessem. Eu os sentia um tanto quanto vazios no que diz respeito a conteúdo. E eu percebi que precisava continuar lendo e estudando para além de métodos e formas de escrita. Eu precisava estudar sobre gente. E é engraçado como a vida vai abrindo os caminhos com mais facilidade quando nós tomamos uma decisão que está de acordo com o nosso propósito.

   A minha decisão de estudar sobre gente para enriquecer os meus textos não partiu de um lugar aleatório, ela partiu de um lugar profundo, de um lugar de vontade. Quando eu era adolescente, uma das graduações que eu cogitava fazer era em psicologia, porque o comportamento humano sempre foi uma das maiores incógnitas da minha vida. E foi mais uma grande paixão que eu deixei para trás. Então, quando eu decidi começar a estudar psicologia por conta própria, não foi com o intuito de me tornar psicóloga ou terapeuta, mas de me ajudar, para que no futuro os meus textos, as minhas palavras escritas, e também as faladas, pudessem ajudar a outras pessoas. Pudessem trazer conforto.

  Outra coisa que sempre me interessou também foi a filosofia e suas questões existenciais. E ao começar a ler e a estudar filosofia, eu fui percebendo que ela não era apenas isso, e que existe todo um modo de vida filosófico. Entretanto, somente ler não era o bastante, como eu disse, existe o modo de vida filosófico. Então a vida providenciou para mim que eu o vivenciasse. Eu aprendi a meditar de diversas formas, e aprendi que a meditação não vai trazer a paz interior. Eu aprendi a respirar e a controlar a minha respiração em momentos em que a ansiedade tomaria conta de mim, em um passado não muito distante. Eu aprendi a dormir, a ler, a estudar. E estou aprendendo a comer. Tudo isso com a disciplina filosófica aplicada à minha vida.

   E depois eu decidi voltar a estudar o espiritismo. Na era da informação, nós também adquirimos uma mania de universalizar conhecimentos espirituais, e ir adquirindo "cadinhos" e não se aprofundando em nada, o que nos torna extremamente manipuláveis e sem senso crítico em relação a nada. Eu me sentia afastada das questões espirituais há muito tempo e sentia essa necessidade de aprofundar os meus conhecimentos no espiritismo, uma doutrina que, para mim, sempre foi muito esclarecedora e consoladora. Eu me sentia afastada da fé, porque o universalismo me fez pensar que eu acreditava em muitas coisas, mas me afastou da prece e do que realmente importava. E, mais importante ainda, me sentia afastada de Jesus, de Deus. E eu precisava me reaproximar deles. E, nesse texto, eu não vou entrar em detalhes sobre religião mais do que já falei, e talvez, em nenhum outro texto eu fale sobre religião, mas falarei sobre o amor, a fraternidade, a caridade.

   Eu estava nos lugares errados e isso era um fato, tanto estava que me causava dor. Mas, ela nada mais é do que uma balizadora, nos ilumina os caminhos, nos mostra por onde podemos ir, é o que nos faz mudar, é o que nos faz sair do lugar de onde estamos. Como diz a filosofia oriental, a dor é um veículo de consciência, através da qual todo sofrimento traz em si um ensinamento necessário para a nossa evolução. Mas eu não saía do lugar. Eu andava em círculos nos mesmos lugares e achava que estava mudando, que estava evoluindo e fazendo algo por mim, por meu filho, por minha mãe, por meu futuro. Mas eu me sentia inadequada. 

   Enfim, eu RE-descobri o meu propósito na dor, no entanto, por muito tempo, eu deixei que o sofrimento estivesse no leme da minha vida, e eu entendi, finalmente, o que ela tanto quis me ensinar sobre o meu propósito.

   Uma coisa em que os coachs de internet são muito bons é em dizer em quantos e quais passos você vai mudar a sua vida. Mas eles esquecem de individualizar. Esquecem que cada ser humano é único. Com suas próprias dores, seus próprios problemas. Sim, reconheço que eles leram muitos livros, se instruíram, mas esqueceram do se especializar no fator principal do componente humano: a emoção.

   Uma palavra certa, dita na hora errada é como uma flecha que fere o peito do mesmo jeito que uma palavra errada. Não existem fórmulas prontas, nem receitas. Existem componentes, ingredientes, que vão ser trabalhados de maneiras diferentes em cada pessoa. E, sim, há de se esperar o tempo de cada um. O mundo quer que a gente pense o contrário. Quer que a gente pense que está perdendo tempo, que estamos sendo improdutivos e que se descansarmos “meu Deus, que grande pecado estou cometendo”. E aqui, você pode até não acreditar, mas Deus descansou no sétimo dia. Então, tire um dia pra você. E sim, é justo trabalhar 6 e descansar 1.

   O meu propósito não é apenas escrever, apesar de eu me considerar uma escritora. O meu propósito é deixar que a minha alma fale com a alma das pessoas. Aonde isso vai me levar? Eu não sei. Mas a vida... Eu confio nela. E mais que tudo isso, eu confio em Deus, porque foi Ele quem me trouxe até aqui depois de muita lágrima, muito choro, muita prece, muito diálogo.


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