Não reconhecer-se... E a necessidade de voltar a si.
Já dizia Saramago que a felicidade consiste em dar passos na direção de si próprio e ver o que se é. E ultimamente estava agindo de formas em que eu não me reconhecia mais. E eu não estava me sentindo bem dentro da minha própria pele. Como se eu tivesse me distanciado do que sou, portanto não estava me sentindo feliz. Eu poderia dar várias justificativas para dizer que o meu comportamento recente não era responsabilidade minha e, sim, do que outras pessoas me fizeram. Mas eu não estaria sendo honesta comigo mesma.
Eu já me vi chafurdando na lama várias vezes na vida e sempre atribuindo a culpa a alguém e me eximindo completamente de toda, e qualquer, responsabilidade. Como se eu fosse uma vítima inocente de toda a maldade humana.
Eu precisei chegar ao fundo do poço para perceber que eu havia voltado para lá. O fundo do poço é um lugar escuro, solitário, triste, frio. E eu quando abri os olhos e me vi ali de novo, percebi que eu precisava fazer algo para voltar a minha jornada de saída.
Todos os passos que eu havia dado durante tanto tempo não poderiam ser em vão. Eu não poderia permitir. Então fiz a única coisa sensata que me cabia fazer. Parei de chorar, sequei as minhas lágrimas, tateei o meu solo com cuidado para saber quais dores me cercavam e haviam me puxado de volta para lá. Peguei cada uma delas no colo e as acalentei, como a gente com uma criança que acabou de se machucar.
Depois de dar colo as minhas dores, as acalentar e as entender, eu as senti e as chorei novamente de modo que elas se transformaram na minha força para que eu pudesse subir. No entanto, dessa vez, não foi preciso muito tempo, nem muito esforço, eu já conhecia o caminho da volta. Eu já sei o que me faz bem. Era só fazer. Mas eu não conseguia. Então, o que faltava?
Faltava um clique, um virar de chaves. E tudo isso aconteceu no dia em que eu decidi me dar uma última chance de tentar algo que eu já sabia que estava fracassado logo, essa última tentativa também estava fadada ao fracasso. Mas eu teimo em ouvir o meu coração falar comigo. Ele falou "Vamos." Eu perguntei se ele tinha certeza, afinal de contas, ele já havia sido tão ferido. Ele só disse "é isso que nós precisamos. Eu estou pronto." Então, nós fomos.
O resultado de tudo isso foi a sensação de liberdade. Eu, finalmente, estava livre de toda aquela carga. Eu já não seria mais um estorvo, já não incomodaria mais. E desde esse dia eu tenho andado em direção a mim mesma e visto o que sou. E não há sensação melhor que essa, de dedicar-se a si e ao que importa, ao que te conecta à tua essência. E é como tenho me sentido, como se tivesse ascendido em três semanas o que, geralmente, se leva três anos.
Me surpreendo a cada dia comigo mesma, com as minhas próprias pequenas vitórias e com a disposição que tenho tido para realizar meus sonhos, aqueles que voltei a sonhar faz pouco tempo. Voltar ao fundo do poço foi necessário, pegar no colo aquela menina carente e abandonada tantas vezes e acalentá-la também foi necessário. Sentir e chorar todas essas dores antigas foi substancial no meu processo de subida.
E agora eu estou aqui, saindo do poço, porque na última vez em que falei sobre ele, eu disse que estava quase saindo. E quando estamos quase saindo, há sempre o risco de escorregarmos e voltarmos, que foi o meu caso. No entanto, eu estou saindo dessa vez, já estou com os braços para fora e, dessa vez, vai ser necessário uma força excepcional para me empurrar para dentro dele de novo.

Amei, em alguns trechos me vi refletindo e vendo que realmente em momentos precisamos nos “perceber” ( não escrevo tão bem como você rsrsrs) mas é exatamente isso!
ResponderExcluir